Produção do Espaço como Composição: um resgate da ontologia do espaço na geografia a partir do pensamento de Martin Heidegger sobre a técnica.

Resumo: O projeto aborda a temática da ontologia do espaço geográfico propondo problematizá-la a partir do pensamento de cunho ontológico que o filósofo Martin Heidegger desenvolveu, através de sua singular interpretação sobre a técnica. Trata-se de propor uma perspectiva sobre o assunto que, sugere-se, permite contemplar de maneira fértil a convergência de noções centrais no debate teórico em geografia sobre o tema, quais sejam: as noções de produção do espaço e técnica.

O tema da ontologia do espaço - enquanto campo da Teoria da Geografia que problematiza o ser do espaço geográfico - foi desenvolvido em estrita associação ao movimento de renovação crítica que a ciência geográfica conheceu de modo substantivo a partir da década de 1970 (SANTOS, 1978 [1990]; CORRÊA, 1995; MOREIRA, 1998; 1999; 2007; HARVEY, 1980[1973]). Embora este movimento seja dotado de uma perspectiva epistemológica pluralista (MOREIRA 2004b), é possível reconhecer, no que diz respeito estritamente à reflexão ontológica sobre o espaço na teoria da geografia, o caráter prevalente de um “viés” ontológico dominante: trata-se da elaboração de uma ontologia social do espaço que se substantiva pela determinação social do ser do espaço geográfico (REIS, 2009). Este perfil dominante de determinação ontológica do espaço pode ser ilustrado, de modo cabal, na seguinte passagem:

“Tudo, porém, tem início na realidade social, como escreveu Sebag (1972, p. 62): ‘A primazia do ser vem do fato de que ele jamais é acabado e essa inconclusão se resolve no tempo’. Se saímos da totalidade social é somente para tornar a ela. (...). O ser é a sociedade total, o tempo são os processos, e as funções, assim como as formas são a existência”(SANTOS, 1988, p. 27).

Esta perspectiva de elaboração da ontologia do espaço é, em essência, compartilhada por uma gama significativa de teóricos renomados que abordaram a ontologia do espaço na geografia (SOJA, 1993[1988]; MORAES, 1982; SILVA, 1982, 1983; MOREIRA, 2002, 2004b, 2007), configurando, assim, um viés prevalente com o qual a ontologia do espaço está estabelecida na geografia.

Desse modo, o plano de fundamentação ontológica do espaço na teoria da geografia constitui, basicamente, uma “onto-socio-logia” do espaço, na medida em que compreende o ser do espaço geográfico a partir da sociedade (ou “ser” social). Este perfil traduz, em última instância, a força que o pensamento de Marx possui na fundamentação teórica do movimento de renovação crítica da geografia. É, em igual medida, em função da força da influência do pensamento deste filósofo que a noção de produção social do espaço assumirá um papel de fundamental importância na teoria da geografia, notadamente consagrada na esfera da reflexão acerca do objeto de uma geografia criticamente renovada (SANTOS, 1978[1990]; CORRÊA, 1995; MOREIRA, 1998; 1999; 2007; HARVEY, 1980[1973]; SOJA, 1993[1988]; MORAES, 1982; SILVA, 1982, 1983; MOREIRA, 2002, 2004, 2007). A rigor, “produção social do espaço” e “determinação social do ser do espaço” constituem expressões equivalentes na reflexão ontológica sobre o espaço na teoria da geografia.

Cabe, portanto (não obstante os inequívocos avanços conquistados à teoria da geografia através da elaboração de uma ontologia de seu objeto assentada na noção de produção social do espaço sob a inspiração marxiana), problematizar o significado dessa perspectiva de determinação social do espaço que se poderia designar “consagrada” no que diz respeito à ontologia na teoria da geografia.

É nesse sentido que o pensamento de Martin Heidegger é entrevisto como uma alternativa fecunda que, sugere-se, pode contribuir para ampliar o escopo da reflexão ontológica na teoria da geografia, na medida em que toda a sua obra é dedicada, fundamentalmente, à elaboração de um pensamento ontológico, cuja singular radicalidade é amplamente reconhecida (BLANC, 1998; LOPARIC, 1990; RÉE, 1999).

Mais especificamente, é a partir da noção de com-posição, elaborada por Heidegger para designar sua compreensão acerca da essência da técnica em seu texto antológico “A Questão da Técnica” (HEIDEGGER, 2002[1954]), que se identifica uma via factível para radicalizar os pressupostos ontológicos vigentes na teoria do espaço na geografia. Isso se verifica na medida em que a noção de com-posição constitui o “elemento conceitual” através do qual o pensamento de Heidegger, ao questionar a essência da técnica, redimensiona a relação vigente entre produção, técnica e o assunto fundamental de toda investigação ontológica, o ser.

Desse modo, o recurso à noção de com-posição revela-se particularmente fértil à investigação sobre a ontologia do espaço na geografia, como se pretende demonstrar com a pesquisa proposta, num duplo aspecto. Por um lado, conceber a produção do espaço como com-posição oferece um caminho para a interpretação crítica acerca do significado do perfil dominante da ontologia social do espaço na geografia, na medida em que a noção de com-posição conduz uma interpretação sobre a relação entre produção e ser tributária de pressupostos ontológicos radicalmente distintos dos pressupostos associados à noção de produção social do espaço. Por outro lado, pensar a produção do espaço como com-posição oferece, também, um caminho alternativo para a reflexão ontológica sobre o espaço na geografia que estaria aberto a desenvolvimento ulterior.

Data de início: 2011-05-12
Prazo (meses): 36

Participantes:

Papelordem decrescente Nome
Coordenador Luis Carlos Tosta dos Reis
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